O caminho de volta, 100 anos e quatro gerações depois

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Acabei de voltar de uma viagem fantástica ao Japão, país que sempre esteve presente em minha vida: Por ser um nipo-brasileiro puro sangue, a cultura japonesa está em minha identidade. Entretanto, por ter raízes muito distantes (sou “yonsei”, bisneto de japoneses), a distância cultural seria enorme (não, não falo japonês, não conheço meus parentes no Japão e nunca tinha ido pra lá).

Ouvi histórias sobre o Japão a vida toda, e sempre me interessei pela cultura e pela trajetória dos “nikkeis”, os descendentes de japoneses no Brasil (recomendo o trabalho da admirável Dra. Ruth Cardoso, “Estrutura familiar e mobilidade social – Estudo dos japoneses no Estado de São Paulo”).

Propaganda japonesa do início do Séc. XX, incentivado a imigração ao Brasil

Propaganda japonesa do início do Séc. XX, incentivando a imigração ao Brasil

Tenho diversos amigos nipo-brasileiros, estudei em colégios em que grande parte dos alunos era descendente, já frequentei muita balada japa. Minha família é da região da alta-paulista, com forte presença da comunidade nipo-brasileira; visitá-la durante as férias significava participar de undokais, frequentar kaikans e celebrar uma cultura trazida do Japão no início do século 20. Após adulto, passei a questionar rituais e a rejeitar estereótipos. Considerava que estávamos presos no tempo, isolados em relação ao Japão moderno pós-guerra. Além disso, não me identificava com os rótulos que as pessoas teimavam em tentar me encaixar. Considerava a cultura asiática conflitante com a ocidental e brasileira, sendo difícil de lidar, por exemplo, com costumes ritualísticos e hierárquicos em um país informal como o Brasil. No fundo, não sabia o quanto eu de fato era japonês.

O roteiro

O roteiro

Dada certa canja em viagens e dotado de algum espírito aventureiro, me considerava preparado para finalmente conhecer o Japão. Não iria resolver minhas pirações existenciais em 17 dias de férias, mas teria uma boa noção sobre o que é o Japão, conhecendo cidades grandes e pequenas desde Tóquio, no centro, até o sul do país, Beppu. Não sou editor de guia de viagem (infelizmente!!), então não vou descrever os lugares que visitei. Também não sou antropólogo, então não vou fazer nenhuma análise cultural sofisticada aqui. Mas quero compartilhar o que senti nessa viagem.

O Japão é incrível. Minha conclusão é que sou muito mais japonês do que pensava. E sou muito brasileiro pra conseguir adaptar, por mais contraditórias que pareçam ser, a minha raiz japonesa com as das outras culturas que formam o Brasil. Afinal, miscigenação e adaptação que fazem o brasil, Brasil. Não é?

Já tive a oportunidade de conhecer outros países mais ou menos ricos, no velho e no novo mundo, e ainda assim, o Japão chamou minha atenção pela civilidade. O japonês é tão civilizado, mas tão civilizado, que é tudo limpíssimo, silencioso, respeitoso e perfeito. Você pode estar no famoso cruzamento do bairro de Shibuya, em Tóquio, o mais movimentado do mundo mundial, e ele é silencioso, ninguém fala alto, ninguém se tromba, todos fazem seu papel para manter a vida coletivamente organizada. Minha teoria (na verdade a da Ruth Benedict) é que o japonês valoriza muito o respeito ao seu espaço (“proper station”) e, para que isso seja possível, não invade o espaço do outro. Pra mim, graças a isso, regras escritas ou morais, são absolutamente seguidas.

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Cruzamento do bairro de Shibuya, na Hachiko Station

Eu me identificava com aquilo. Conseguia ver exemplos em que também me comportava daquele jeito. Timidez, respeito à hierarquia e ao próximo, formalidade, obediência às regras, será que são valores japas que estão em mim? Em que grau? Como será que aprendi a lidar com eles à brasileira?

Ter cara de japa, sobrenome japa, mas não ser japa, foi a maior piração. Eu me divertia ao não precisar soletrar meu sobrenome (aliás até descobri o seu significado graças à amiga Mari Hattogai).

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Perguntas curiosas (but where are you from?), que sempre acontecem quando estou na gringa, foram especialmente engraçadas no Japão. Quebras de protocolo nos rituais foram uma constante (não ter ideia do que fazer nos templos religiosos, entrar de tênis em lugar com tatame, agradecer os mais velhos em japonês usando expressões que só se usa com mais novos, falar alto e gargalhar em locais públicos…) perdoáveis para estrangeiros, eram inaceitáveis para um ‘japonês’ como eu. E a balada japa (fomos com o amigo Ralph Nagata) tinha todo um ritual engraçadíssimo para brasileiros.

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Enfim, muito feliz em ter tido a oportunidade de ‘retornar’ ao Japão, sonho que quase nenhum dos 200 mil imigrantes, incluindo meus bisavós, conseguiu realizar. Os japas desbravaram o interior de São Paulo, Paraná e outros estados, se integraram ao Brasil e ajudaram a construir a história e a influenciar a cultura desse país. Ter conhecido o Japão me fez valorizar e sentir mais orgulhoso de minhas origens. Terem escolhido o Brasil foi muita sorte para mim =)

Obs: Tks Camis por dividir a aventura comigo!

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5 respostas em “O caminho de volta, 100 anos e quatro gerações depois

  1. Que demais, Kado. Muito bom o texto.
    Mas quero um encontro pessoalmente pra saber mais histórias dessa viagem.

  2. Ricardo, vc se expressou muito bem. Foi o que senti, tb, e principalmente, o orgulho de ser descendente de japonês. Parabéns! Bjs!

  3. Pingback: The way back, 100 years and four generations latter | RICARDO KADOUAKI かど

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