Coisas inspiradoras

O ano de 2014 é o último da gestão do Governo onde eu trabalho. É o fim de um ciclo, aquele período merda onde se espera que tudo pode mudar – ou não… Enfim, esses períodos de fim de ciclo nos forçam a refletir sobre a vida e, nesse clima de fim de festa, me perguntaram quais eram as cinco conquistas que eu mais me orgulhava de ter alcançado. Fiquei pensando sobre isso, do alto dos meus 30 e poucos anos, e ainda dei uma sofisticada na pergunta: Quais foram as coisas mais inspiradoras (pra mim mesmo) que me orgulho de ter feito na vida?

Já que listinhas de Internet estão na moda: As cinco coisas inspiradoras que Ricardo Kadouaki se orgulha de ter feito na vida (um mix de meio excesso de exposição, ingenuidade e marketing pessoal?):

1) Gravidez na adolescência

Se eu tivesse tido um filho aos 15 anos hoje ele teria 18 (caraca!!!). Não, não é isso. Tive a oportunidade de conduzir um projeto que propunha soluções para garantir o bem estar de adolescentes grávidas de baixa renda. Foi muito inspirador por três motivos: 1) Ter conhecido a realidade tanto das adolescentes quanto dos heróis (não consigo definir de uma forma menos cafona) que trabalham com e para elas. 2) Ter aprendido uma forma muito interessante de trabalho (meio óbvia, mas difícil de fazer) ao me colocar no lugar delas ao tentar desenhar serviços públicos – uma parte disso aí chama design thinking. 3) Ter considerado opiniões de vários envolvidos com a questão da gravidez na adolescência, conduzindo o projeto da forma mais participativa possível. Foi um projeto piloto, o aprendizado foi imenso; elaborar política pública séria e participativa é um grande desafio. Pessoalmente, foi tão intenso que ao fim do projeto, que durou *nove meses*, tive uma apendicite. Foi a forma irônica e masculina de fechar o projeto.

2) Conhecer a Dra. Ruth Cardoso

Ter sido convidado para compor a equipe de consultoria estratégica que atenderia a ONG dirigida pela Dra. Ruth Cardoso foi sorte grande. Uma pena não estar intelectualmente preparado o suficiente para conseguir acompanhar todas as discussões que presenciei.

A Dra. Ruth é grande conhecedora sobre a imigração japonesa no Brasil, esse foi o tema de sua tese de doutorado e é referência para qualquer pesquisador no assunto. Sem saber disso, lembro-me de uma ocasião em que ela perguntou sobre a história de minha família. Essa foi uma das poucas vezes em que senti que tinha mais conteúdo do que ela. Só que não, nem isso 🙂

As bases do pensamento da Dra. Ruth para participação social (que depois viraram Comunidade Solidária no governo FHC, fortalecimento do Terceiro Setor no Brasil e políticas públicas que, mais ou menos, continuaram com Lula e Dilma) vieram dos japoneses no Brasil. Não é fantástico?

3) O Twitter no governo

Meio singelo isso, quase bobo em 2014, mas lá em 2007, quando estávamos começando a entender o Twitter, o Orkut, a web 2.0, para utilizá-los com fim institucional, tive insights muito inspiradores com duas das integrantes da minha equipe, a Pa Cardillo e a Beth Mazini. Bibliotecárias que trabalhavam há algum tempo na instituição, outrora referência em administração pública municipal no Brasil, estavam frustradas em gerenciar uma biblioteca com rico acervo em conhecimento, mas pouquíssimo frequentada. Quando nós entendemos que o Twitter que eu havia criado para a instituição (com menos de 100 seguidores) tinha o poder de, em um clique, fazer algo que exigia delas esforço de meses – divulgar conhecimento tratado para pessoas interessadas – rolou uma catarse. Elas não só entenderam o poder transformador das redes sociais para os governos, como passaram a dominá-las (mais que os seus filhos adolescentes e adultos). Juntos, nadamos de braçada ao colocar a instituição na web.

4) Informática na Comunidade

Minha primeira experiência inspiradora: acompanhar a reação dos meus alunos ao aprender a manusear o mouse, a digitar seus nomes no teclado ou ao acessar a Internet pela primeira vez. Os alunos da ONG eram pessoas que nunca tinham usado um computador na vida, em sua maioria jovens e adultos de baixa renda que moravam ao lado da Av Paulista. Presenciei gente tremendo, chorando, nos agradecendo, nos abençoando por estarem tendo aquela oportunidade.

5) Perfil dos Prefeitos

Tive a oportunidade de coordenar uma pesquisa com cerca de 620 prefeitos paulistas que haviam acabado de ser eleitos mas ainda não haviam assumido os cargos. O inspirador aqui foram as perguntas abertas do tipo “Qual o seu sonho?” ou “Por que você quis ser prefeito?”. Teve muita coisa legal. Já tive a chance de conhecer alguns prefeitos de cidades pequenas, tem muita gente simples, bem intencionada, que queria fazer diferença para as suas comunidades. Infelizmente, o sistema, a máquina pública, as dificuldades que encontram pelo caminho tratoram muitos deles. Queria ter conduzido a mesma pesquisa ao final de suas gestões para saber se continuariam inspiradores. Gestores públicos municipais (principalmente os de cidades pequenas) também são *heróis*.

Bônus:

Só podiam ser cinco, mas não dá pra deixar de citar como coisas inspiradoras: Trabalhar com o MIT Media Lab e ter conhecido o Japão 🙂

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“Porque aprendi que a vida, apesar de bruta, é meio mágica. Dá sempre pra tirar um coelho da cartola. E lá vou eu, nas minhas tentativas, às vezes meio cegas, às vezes meio burras, tentar acertar os passos. Sem me preocupar se a próxima etapa será o tombo ou o voo. Eu sei que vou. Insisto na caminhada. O que não dá é pra ficar parada. Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo, eu tiro um arco-íris da cartola. E refaço. Colo. Pinto e bordo. Porque a força de dentro é maior. Maior que todo mal que existe no mundo. Maior que todos os ventos contrários. É maior porque é do bem. E nisso, sim, acredito até o fim.” – Caio F.