Purgatório da beleza e do caos

Contexto: paulistano chega desconfiado em Belo Horizonte, cidade grande, mas não pro seu parâmetro. Passa uma grande temporada lá e vai embora obrigado, tamanha paixão pela cidade e prazer da experiência. Chega ao Rio de Janeiro empolgado com a nova aventura, com expectativa de ser no mínimo tão boa quanto a outra.

Eu tinha uma chefe que dizia que decepção é igual a gestão de expectativa. Tinha tudo pra ser incrível e achava que estava preparado.

Como está sendo o Rio? Bom, eu pego a ponte aérea ou a Dutra desde sempre, já tive muitos carnavais e feriados cariocas. Mas morar é diferente de passear.

Essa foto aí simboliza bem o lado negativo do Rio pra mim. Foi tirada na estação Catete do metrô e mostra que nem todas as regras precisam ser seguidas por aqui, nem todos os compromissos são definitivos, o proibido pode ser permitido.

Metro Catete

Explico: apesar do aviso de todo o tamanho (um deles é bilíngue), sim, há saída no final dessa escada. Trata-se de uma catraca sinalizada com uma flecha verde, ou seja, é uma saída oficial, não é necessário cometer nenhuma contravenção pra chegar lá, não precisa pular a corrente nem esconder-se do guarda. Apesar da clareza e formalidade dos três avisos, é institucionalmente permitido sair por ali. Os que respeitam a regra dão uma volta imensa para sair da estação; os que conhecem o sistema sabem que a proibição não é seria.

O caso repete-se em diversas estações do metrô. Vou além: Há diversos exemplos como esse no dia-a-dia carioca, a informalidade está presente na cultura da cidade. Você não quer ser um forasteiro chato e tenta adaptar-se, mas fica difícil quando seu espaço passa a ser desrespeitado: O compromisso que fizeram contigo não era pra ser levado assim tão a sério. As normas de civilidade que você segue não são assim tão rígidas.

O Rio é belo, divertido e sensual (cliché). A paisagem que se vê ao decolar ou pousar no SDU é deslumbrante. As festas são incríveis, o carnaval é maravilhoso. Todo mundo na praia tá com o corpo em dia. Meus vizinhos frequentemente expressam seu amor de janela aberta :p

Sei que informalidade, sensualidade e diversão são coisas brasileiras, e não exclusivas do Rio. Mas acho que essas características são mais intensas aqui (nem vou mencionar desigualdade social, sensação de segurança e política). Enquanto turista, passeava pelo Rio com Bossa Nova na cabeça. Agora como morador, sempre lembro da Fernanda Abreu: O Rio é a capital do melhor e do pior do Brasil.

Apesar de toda a preparação, acho que a expectativa estava muito alta. Conheci pessoas incríveis e venho tendo ótimas experiências profissionais no Rio. Mesmo assim, não imaginava que a adaptação à cidade seria tão difícil.